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sexta-feira, 18 de julho de 2008

Remeto-lhe

Quando com teus dedos tocas
Minha pele arrepiada
Tua vontade inflamada
Arrancar de mim os panos
Sem planos, tu me provocas
Te enroscas verbos profanos
Teus impérios pubianos
Beijo em torpor, me desfocas

Deslocas...

Meu eixo com teus quadris
Bem quis quartear teu toque
Dançando em ti, meu estoque
Da Música que não fiz...

Desfiz...

Componho em ti meu soneto
Do grito mudo que entoas
Nossas vozes que ecoas
Prazeres teus que remeto
Re-meto sons que não soas
De um modo tal que tu voas
Ao céu, Luar, que cometo

E prometo:

Que meto em ti o meu ser
Servindo a ti o que sou
Daquilo que só restou
Por-dentro-em-ti meu querer
Amores por teu prazer
Prazer em ti, meu amor

(.:Ricardo Vieira:.)

domingo, 13 de julho de 2008

Jazigo dos Justos

Já me acostumei a estranhar
A sempre vaga condição que me abomina
Na imobilidade que já me domina
Ao Ver o meu horror se materializar
Inevitável fim do que nunca termina
Na morte do que não se pode exterminar
A variável que se oculta pela rima
Já não consegue em canto algum se ocultar
Onde é a casa da verdade, feia e torta?
Restou alguma intimidade a devassar?
Gracejo torpe em minha face meio morta
Em face desse teu amor a me açoitar.

sábado, 12 de julho de 2008

Ressurreições de Um Imortal

Ora penso, ora “dispenso”
O que sei é que o bom senso
Sempre agrega no dissenso
Mas não tenso. Só derroto o que repenso
Ora me rendo, ora me venço.
Indiferentemente ao fato
De que “isto” eu não pertenço

Independentemente ao fato
De que isso não dispenso
Seja bom ou mau o senso
Teu consenso no dissenso

Levo a verdade contida
No marco zero do tenso
Que inevitavelmente
Real prova o que penso

Mentira leve do Senso
Comum frio e indiferente
Perde a alma e nem sente
E ainda chama de bom senso

Teu consenso não me vende
Não me compra, não me entende
Mas cabe na embalagem
No dente podre da engrenagem
Que impera o que transcende

Cai por chão teu infortúnio
De inglório flerte Hegemônico
Eu que aqui, prossigo atônito
Dia e noite, ainda me venço

Ainda que sigo tenso
Mais simplista que simplório
Prossigo por que me venço
E ressuscito no meu velório

Meio sopro, torto, impreciso
E a luz branca, hoje amarela
Face morta, mas que apaga
Teu sorriso... e tua vela.

(.:Ricardo Vieira:.)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

CHAVE OCULTA

Quem és tu, que tão sem voz
Me habita a vida e abismos
Que me abismas na questão
Que me imperas nos motivos

Por que procuro-te eu
Dentre as crenças e achismos
Nas respostas do ateu
Nas perguntas do Cubismo

E por que te embrenhas tanto
Nas rugas de tantos rostos
Torna o tempo feio e santo
Belo manto de desgostos

Te degusto porque foges
Qualquer linha racional
Desde aqueles que se imolam
Queimando consigo o Mal
E o Bem que se interpolam
Neste equilíbrio informal

Eis que chave que ocultas
Destas portas que hoje acho
Dorme sob o travesseiro
Eu por sobre, ela debaixo

Firmando o que já é certo
Mas nem sempre se consegue
Perceber: não há pergunta
Que a resposta não carregue

(.:Ricardo Vieira:.)

HOJE ACORDEI COM UMA VONTADE ENORME...

"...De destruir a vida de alguém..."
(.:Verdades Satíricas:.)

Uma manhã quente como os infernos não poderia ser diferente. Lençóis suados e frios pegando nas minhas costas porque esqueci de colocar uma camiseta antes de dormir. Um pé do chinelo que simplesmente decidiu desaparecer por absoluto naquela dimensão onde um dos pés dos nossos pares de meias favoritos cismam em ir parar, e de lá somente regressarem após a gente colocar fora o pé que havia sobrado.

Era um complô sim. Mas não um complô comum. Era um complô em favor de meu mau humor, e obviamente, por conseqüência, um complô contra o mundo que me cercava, pois ali decidi: Hoje vou destruir a vida de alguém.

Dentre todas as lâminas que o homem fabricou até hoje, com o advento da ciência ultra evoluída, nunca, jamais, em hipótese alguma, gerou-se nada capaz de superar o poder cortante de minha língua associada a um violento mau humor. Afinal, de uma vida que de sucessos conheceu apenas o desejo, que de sonhos conheceu apenas a interrupção justamente nos momentos de gozo, as 5h e 45min da manhã de qualquer dia que fosse onde meu deprimente emprego exigisse que eu estivesse, a produzir matricialmente a riqueza de um homem que nunca sequer vi. É uma boa razão – Hoje eu destruo a vida de alguém.

O café... Esse sim nunca me traiu, ajuda a manter as dores de cabeça em relativo controle, e dizem que mantém o sono longe. E se já sinto sono o dia todo tomando café, imagina se não tomo! Sim ele vai me dar o primeiro prazer do dia... Merda... Um gole sedento e profundo de café “adoçado” com sal. Por que diabos são iguais esses potes?

Chega, vamos lá, tenho uma vida pra destruir, hoje acabo com alguém, e só preciso olhar e dizer a verdade. A verdade é suficiente pra acabar com qualquer alma feliz.

Por falar em felicidade, isso é uma palhaçada. Não existe, nem nunca existiu. É pura ilusão. Sempre tem um cretino pra dizer: “Felicidade não existe, somente momentos felizes!” – Isso quando não aparece um cretino mais cretino ainda pra dizer coisa pior: “A felicidade é a gente que faz!”... Definitivamente cretinos. O que existe é a ausência de cretinisse e infelicidade, e isso posso provar pra qualquer um (que não seja um cretino, óbvio).

Qual não foi minha satisfação ao sair no portão de meu barraco e dar-me de frente adivinha com quem? Ah...! Aquela figura ridícula e presa fácil: O Carteiro. Quer coisa mais ridícula que um homem de meia idade vestido de amarelo gritante e azul-saco andando por aí distribuindo cartinhas? Ah, ele vai me ouvir, aquele ridículo. Na minha mente começou a formar-se o argumente perfeito, e ele jamais conseguiria entregar uma carta novamente sem lembra-se do quão ridículo ele era. Saberia do quanto sua insignificância e frustração eram evidentes no jeito de andar, de fugir de cachorros, de bater palmas para pegar assinaturas, de caminhar por aí feito um imbecil por um salário indigno e interesse de desinteressados por ele. Ah, que maravilha!

- Bom dia seu Amaro! Olha só, ontem passei aqui para lhe entregar este telegrama registrado, vi que o senhor ainda não havia chegado, mas sei que o senhor sai sempre cedo, junto comigo, resolvi guardar pra lhe entregar aqui, para que não voltasse lá pra central, causando transtornos para retirar.

Por um momento fiquei pensando... Quem é esse homem que nunca vi na vida? Que sabe onde moro, sabe meu nome, o horário que saio pra trabalhar, e vem cheio de simpatias sem nunca sequer ter recebido um cumprimento meu (eu é que não perco tempo dando “oizinhos” pra cada um que vejo)...

Sem responder peguei o telegrama, com a curiosidade dividida entre a carta e o homem misterioso, e fui desacelerando o passo conforme tentava ler as letras trepidantes, mas sem conseguir concentrar-me nem numa coisa, nem noutra. O Carteiro acelerou o passo, para não perder o ônibus, faltavam ainda umas duas quadras até o ponto de ônibus. Então consegui ver o que se revelava como: “Querido Amaro! Finalmente encontramos você, depois de tanto anos! Como você está? Teus amigos aqui querem muito saber notícias... blá, blá, blá...”.

Sim, “blá-blá-blá”, pois simplesmente não consegui nem continuar, atônito por ter sido lembrado por... nem lembrava mais por quem. E quando dei por mim, estava estático, parado com a carta na mão. E subitamente lembrando que ia perder meu ônibus, e na seqüência, o emprego, onde atraso não era admitido!

Mas era tarde, faltava quase uma quadra inteira, e vi o ônibus passar pela esquina... Me lasquei... Apenas mantive o passo numa esperança inútil de que não fosse e o meu, e sim o que passava antes deles, atrasado, que tudo ficaria bem. Tem idéia da sensação do pânico que me percorreu? Não tem não. Era pé na bunda, na certa.
Mas, quando me aproximei da parada, qual não foi minha surpresa! O coletivo ali, parado, me aguardando, com uma figura amarela gritando na porta da frente, dependurado: “Vamos, vamos, pedi pra pro motorista te esperar, anda!”

Maldito carteiro. Como eu ia acabar com a vida dele agora? Cretino.

Havia ainda um banco logo atrás da roleta (catraca, para alguns), e tratei de adiantar-me e sentei. Ele postou-se em pé, ao meu lado, calado e compenetrado na janela. Fiquei torcendo para que não ficasse puxando papo, odeio conversas de ônibus, não tem coisa mais chata. À minha frente, a figura tétrica do cobrador (trocador, para alguns), morrendo de sono, quase dando cabeçadas na sua gaveta de moedas. Que ridículo. Seria ele. Sim, ele ia ser destruído!
- Hei, cobrador! Tava de festa ontem? Não consegue nem parar sentado...
- Não senhor, era velório. Minha mãe de criação faleceu, foi péssimo... Nem folga consegui hoje, mas vou tentar agüentar o dia de trabalho, apesar da tristeza. Puxa vida, ela era tudo pra mim... A melhor mãe do mundo.

Duvidei... Acho ainda que ele estava de festa, mas na dúvida, melhor não questionar. Vai que é verdade e a falecida vem me puxar os pés de noite... Não que eu acredite, mas melhor não arriscar. Segui em frente, entediado.

De repente, lembrei-me: A carta! Afinal, quem era esse remetente esquecido, que de alguma forma me achara? Desembrulhei o bendito papel, confesso, com alguma ansiedade. Nem me lembro da ultima vez que recebi uma carta antes dessa. Recebi?

Para não continuar do blá blá blá, reiniciei a leitura: “Querido Amaro! Finalmente encontramos você, depois de tanto anos! Como você está? Teus amigos aqui querem...”

- Moço, será que o senhor se importa de segurar isso pra mim? – Mas antes mesmo que eu pudesse responder, ou sequer ver direito a dona da voz feminina e irritante que me perguntara, pousou sobre minha carta uma enorme sacola de pelúcia, cheia de mamadeiras, cobertores (que tipo de criatura anda com cobertores num dia quente que nem hoje?), e um monte de porcarias dessas que bebês gostam que suas patéticas mães carreguem. E não poderia piorar. Ela levava o bendito bebê no colo, fazendo questão de enfiar a fralda polpuda na minha orelha. É. Seria uma viagem ao inferno hoje.

Estava fervendo. E certamente me deixava a face rubra. Era meu sangue, prestes a ebulir. Faltava bem pouco. E de repente... O som denunciava eventos bem ali, na minha orelha esquerda. O bebê fez a única coisa que sabia produzir na vida. Sim. Olhei para a janela ansioso para que estivesse aberta, antes que o fedor me entranhasse pelos poucos cabelos. Segundos depois já estava calculando o tamanho da abertura da janela em relação ao tamanho do simpático bebê fedorento. É. Eu ia dizer as verdades que merecia ouvir toda a mãe chata que carrega bebês em ônibus lotados de trabalhadores que atravessavam toda a periferia e meia cidade para chegar aos seus malditos empregos.

Cheguei a postar-lhe os olhos, anunciando que diria algo e... Percebi que passou-lhe por sobre o ombro um braço generoso... Talvez do tamanho da minha perna em sua melhor época. É. Preferia destruir a vida de alguém sem destruir minha arcada dentária, já faltosa de alguns entes queridos.

O ar da metrópole nunca foi tão puro! Pernas duras, mas acostumando-se a andar enquanto descia os degraus do coletivo, depois de quase hora e meia esmagadas pela sacola, e, depois de certo trecho, pela criança que fui escalado pelo marido para carregar até que cedesse o lugar. É. Finalmente pude descer e devolver um bebê de fraldas cheias e cheirosas para sua mãe.

Apenas três quadras, e meu posto de trabalho chegaria. Ah, a vida deu-me, depois de tantos anos, a posição de fiscalizador daquilo que antes, até bem poucas semanas atrás, era minha função! E havia bastante gente que poderia ser facilmente e merecidamente destruída! O dia chegou! A porta se abriu. Entrei. E lá estavam eles. Meus fiscalizados e suas caras tortas, sabiam que seriam realmente fiscalizados! Sim, seriam mesmo! Mas somente no momento em que eu conseguisse terminar de ler minha carta.

Fui buscar um canto um pouco mais isolado, logo após bater meu ponto. Um canto qualquer sossegado bastaria, não passavam de duas páginas. Apesar de detestar ler, a caligrafia era até bem boa, leria rapidamente: “Querido Amaro! Finalmente encontramos você, depois de tanto anos! Como você está? Teus amigos aqui querem...” – Seu Amaro, por favor, o pessoal vai reunir ali na recepção, tem colega novo.

Ah, os novatos... Eu ainda não havia tido a chance de colocar as mãos num novato bisonho para arrancar-lhe cada resquício de dignidade! Finalmente, chegara a hora!

E qual não foi minha surpresa! Era um homem de grande porte! E casualmente, o homem que me largara no colo uma criança fedorenta, mesmo sob minha recusa, abusando de minha condição desprivilegiada. Lá estava ele, com uma cara de tacho ridícula, e ainda sem uniforme. Ah, prato cheio. Terei o prazer de não demiti-lo nunca, não sem que antes desejasse muito. As coisas pareciam caminhar para a perfeição!
Seu Amaro, esse é Jorge, como gosta de ser chamado, o novo...

- Jorge? Ah, sim, e ainda gosta de ser chamado? – Vi de cara que ele já estava me reconhecendo, pelo sorriso tímido que esboçou.
- É, eu prefiro ser chamado pelo nome, gosto de manter a informalidade, sabe...
- Claro, claro, Jorge. Mas gosto de ser chamado de Seu Amaro. E, melhor! Prefiro toda a formalidade do mundo! E trata de ir direto pro vestiário tomar um banho, tu estás fedendo a bosta de criança de colo. Pode ser que não gostes de carregar as besteiras que tu fazes nas costas e passar para as costas dos outros, mas aqui, podes ter certeza, vai aprender a colocar os pingos nos “Is”.

- Mas... Seu Amaro, eu...
- Poupe-me, rapaz. Me procures somente quando tiver algo de útil pra dizer. De abobrinhas basta as que tenho que aturar de meus chefes dementes. Mas se tenho que aturar esses imbecis, pode acreditar, tu consegues me aturar. Terás que fazer força, mas acho que consegue. Ou não quer o emprego?

- Puxa... quero sim. Nunca quis tanto. Eu...
- Ta, some da minha frente e vai colocar teu uniforme, pois tenho mais o que fazer, e preciso ler uma maldita carta.
- Tudo bem, Seu Amaro. Obrigado pela orientação. Eu...
- “Eu” o quê, criatura?

- Eu só queria me apresentar... Jorge, sou o novo chefe do RH, fui transferido da matriz pra cá essa semana, pra resolver uns probleminhas que têm acontecido por aqui. Aliás, lhe pediria, quando tiver um tempinho, e terminar de ler sua carta, que dê uma passadinha na minha sala, resolver umas coisinhas, sabe? Ok? – Um sorrisinho charmosíssimo lhe escapou quando se virava. O mesmo de todos os colegas e subordinados que estavam na recepção, a nos escutar...

Tentei: “Querido Amaro! Finalmente encontramos você, depois de tanto anos! Como você está? Teus amigos aqui querem... blá blá blá...”.
Eu não conseguia. Resolvi ir logo pro matadouro. E como era de se esperar, fui abatido.

Fiquei impressionado do quanto a vida pode ser injusta com alguém. Logo eu, que jamais desejei o mal de ninguém que não merecesse! Cretinos e suas cretinisses. Vou é pra casa, esperar o jornal de domingo. Mas não consegui pensar em nada no caminho de casa... Apenas uma sensação de impotência perante a injustiça que sofri...

É... Um café bem que poderia amenizar essa dor de cabeça. E tomei um “golaço” de meia xícara, antes de notar que esqui de adoçar dessa vez. Quando consegui desmanchar a careta, tirei o envelope do bolso, para finalmente descobrir o bendito remetente. Quem teria lembrado de mim no dia mais difícil de minha vida?

Não sei. Só sei que o envelope que achei no bolso era o encaminhamento para o seguro-desemprego... A carta, não achei. Aliás, vale lembrar que nunca a encontrei. Devo ter deixado na recepção, onde os colegas riam de minha desgraça. Me restava esperar o carteiro no dia seguinte, e perguntar se sabia de algo mais... Mas era outro, bem velhote... Contou-me que seu colega foi promovido e deixou de entregar. E que certamente mudara de cidade, não fazia a menor idéia de onde encontrá-lo.
Grande coisa. Tem tanto Amaro por aí. Na certa era um engano mesmo.

SOU INCÍDIO

"Num ato de desespero
Deslizo a Lâmina da Indiferença
Por sobre a artéria Poética"



Ele até sentia medo, mas estava decidido
Não há nada neste mundo que o desvie de tal rumo
Rumo ao Frígido vazio, do endosso do silêncio
Dedo ou dois de vinho tinto... Arrepios
Deslizou sem dó a Lâmina de uma fria indiferença
Que certeira mais que sempre, lhe fende a veia poética
Dos punhos fluem versos, seco, triste, arrependido
No impulso frágil tenso, foi-se ele sem lembrar-se
De pensar nem delegar o seu último pedido
(.:Ricardo Vieira:.)

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Vidas Ilhadas

“Anda guri. Vai brincar na rua”. Era uma sentença, Olavo obedeceu. Jamais, sob circunstância alguma, questionava uma ordem de sua irmã. A mão era pesada, sempre certeira pela incerteza. Sempre surpreendia quando vinha, no contratempo da defesa, ou da esquiva. Poucas vezes foi melhor conseguir escapar, era pior mais tarde.

Puxando os calções para cima, o moleque foi saindo da soleira da porta, sob os cutucões da irmã mais velha, com pouco menos que o dobro de sua idade. E sua idade ele jamais pronunciava, apenas mostrava, quando perguntado, com os dedos espalmados de uma mão, descoordenadamente abrindo os outros dois dedos da segunda mão.

“Ligeiro, moleque, anda...” – aos empurrões apressando Olavo, que de má vontade foi se afastando da porta. Nem mesmo levantou os olhos para ver o homem que entrava pela porta de onde ele se levantava. Nem fazia diferença, nunca mais o veria mesmo, e se visse, não lembraria, eram tantos, às vezes, vários num só dia. E a porta tortuosa e feia do barraco rangeu aos trancos até que se fechasse, ficando apenas as frestas enormes. Parado, Olavo ficou olhando a luz apagar-se. Olhou para os lados, em silêncio, e em pé, como se esperasse alguma novidade que nunca aconteceria. Olhou para os barracos dos dois lados, e o silêncio macabro que ainda se fazia, como um suspense que ele preferia continuar ouvindo. Mas o susto invadiu-lhe subitamente, pela grossa camada de poeira que lhe cobriu a vista, vinda do deslocamento de ar de um apressado caminhão que lhe tirara um fino à beira do acostamento, poucos metros de onde as casas perfilavam-se.

Olavo normalmente era atento, e certamente o moleque de sete anos mais sabido do mundo. Sabia direitinho que caminhões tinham gente estranha dentro. Normalmente eram os que mais se demoravam quando paravam.

Mais uma forte baforada, outro caminhão... E decidiu afastar-se um pouco do acostamento. Não temia a morte. Apenas a dor, que era só o que compreendia. E imaginava que “ser pego” doía muito. Lembrava-se, e afastava-se, mas sempre atento à cena atraente dos caminhões que vinham crescendo no horizonte, até agigantarem-se tanto, e deixarem somente seus rastros de poeira e vento, antes de encolherem novamente no horizonte oposto.

A pele amorenada e manchada de pequenos círculos brancos espalhados pelo rosto e corpo estava ficando fria ao sol de fim de tarde, pois vestia apenas aquele enorme calção vermelho e sujo. Sujo como estava seu rosto, de poeira e lágrima provocada pelo vento. Fitava a casa. Em breve a porta abriria, e o homem que entrou sairia, com um pito nos beiços e expressão de sacies. Era sempre assim, de uns tempos pra cá. E era assim também nas casas aos lados. Mas Leandra ultimamente estava sendo a mais visitada. A natureza seguia seu curso, e era preciso extrair daquele lapso de tempo seu único presente rentável: A beleza.

Mas estava demorando muito... A impaciência de Olavo crescia, e incomodava-o. Sentia-se profundamente sozinho, como normalmente não acontecia. Fitou a porta, e ela não abria, e sua imaginação o fazia quase crer que estava se abrindo. Mas não abria.
Olhava para trás, tentava distrair-se com o caminhão que passava, e fazia onda com folhas sobre o asfalto. Mas era angustiante, pois a porta atrás dele não se abria, e Leandra não o chamava. A angústia lhe fez ter vontade de ir até a porta. Mas sabia que a surra era certa depois. A irmã sempre o chamava de muitos nomes estranhos quando a desobedecia, e sua mão era mais pesada que sua voz. Mas uma sensação de pânico ia crescendo, estranhamente, no peito do menino sujismundo.

Voltou a olhar a porta, fazendo esforço mental para vê-la abrir, o homem sair, e Leandra, depois de uns minutos, o chamar. Sempre levava um tempo, suficiente para o homem entrar de volta no caminhão, ligar, e ir embora. Ela o chamaria. Mas a porta não abria. O pânico e sensação profunda de solidão venceriam em breve o medo de apanhar.
À beira do acostamento, naquela ilha perdida num mundo incompreensível e de pedras cinzas, Olavo estava em pé à beira do acostamento, olhando para seu lar com a porta cerrada, desesperadamente esperando. E desejou profundamente a pesada mão de sua irmã estapeando-lhe o lombo, desde que dando-lhe alguma atenção. E precipitou-se a correr na direção da casa, de olhos entornados d’água. E meio metro antes de chocar-se com a porta, assustou-se com o rangido de sua abertura. Ela escancarava-se.
Parado, atônito, assustado e ao mesmo tempo aliviado, olhou para cima, e para o rosto do homem que saia. Ele sempre odiava os homens que entravam e saiam da casa onde vivia com sua irmã, e sua mãe quase nunca presente. O homem olhou para Olavo, bem nos olhos, e o medo o fez ficar imóvel. Imaginou que o bofete de um homem daquele tamanho doeria como se o caminhão o tivesse acertado, e quando ele ergueu a mão em direção ao meninote, este espremeu os olhos, tenso. Um breve afago no cocuruto, e algo que lhe foi enfiado na palma da mão, agarrado instintivamente, sem ao menos olhar. E o homem se foi, assoviando.

Parado. Olavo ficou ali, olhando o homem ir em direção à estrada, para seu caminhão fazedor de ventos. Então olhou para a própria mão, e viu algumas cédulas de uns poucos reais. E uma bala de mel. O sorriso estampou-lhe a face, e desembrulhou rapidamente a bala metendo na boca, correndo rápido para dentro do casebre torto, com o braço estendido com as notas na mão, a fim de entregá-las à irmã, o que sempre fazia quando lhe davam algum dinheiro. Entrou na cozinha a pique, sem notar que a menina se lavava, nua, numa bacia de alumínio amassada. Uns tortolhos e uns gritos, e ele saiu chorando de dentro de casa. Mas cessou as lágrimas de imediato quando viu o homem e seu caminhão partirem.

O som forte dos freios a ar lhe encantavam. Atento a cada manobra do caminhão para sair na ponte que ligava Porto Alegre às demais cidades satélites, a criança sentia-se diferente. Pela primeira vez achou que veria o homem novamente. E pela primeira vez, abanou para um caminhão que partia. Ansioso por vê-lo encolhendo no horizonte, e aproveitar-lhe o máximo a presença. E olhando, distraído, nem sentiu cair-lhe a bala da boca. E quando notou, já tinha havia caído na areia suja, chegou a abaixar-se para juntá-la, mas teve nojo. Voltou rápido os olhos para a estrada, porém, não havia mais nada. Foi a primeira vez que Olavo entendeu que havia algo nas outras pontas daquela estrada. E foi então que decidiu que viveria o bastante para descobrir o que era.

Como Outrora Fostes

Onde anda tua pose
Tua boa educação
Teus conformes tão disformes
Tua abnegação?

Pelos mais finos primores
Da mais fina encenação
As orgias de mil cores
De bons gostos coleção?

Onde estão tuas palavras
Perfeita colocação
Dentre o verbo conjugado
E o verbo sem ação?

Onde está tua grandeza
E tua convicção
Cada perfeita proeza
Que não vejo no caixão?

Que de tão ornado em flores
Nem parece berço vão
De enterro de valores
Desenterro de oração

Dê-me uma em dez belezas
Dentre as tuas, sempre raras
Hoje tens bem a clareza
Derivam de flores caras

Bom retorno ao que te espera
Bem de onde tu viestes
Dentro em breve serás pó
Que outrora
Limpastes
De tuas vestes

(-Ricardo Vieira-)

Parte Não

Parte minha quer os fatos
Parte outra, talvez não
Parte quer partes do ato
Outra quer só a canção

Nada que seja o relato
Da mais simples ocasião
Por que o sonho é desacato
Parte solta da razão

Se real ou abstrato
Pouco importa se é ou não
Em meu sonho só retrato
Meu extrato em efusão

Se há partes que dividem
Parte sim, parte que não
Partes que nunca decidem
Ou que nem se importarão

Essas partes se confundem
Em valor e proporção
Se ancoram e se fundem
Em perfeita profusão


Se só crias todo ou parte
Se te parte o coração
Se à parte crias arte
Artista ou mero artesão

Contas parte da tua lida
Com os calos da tua mão
Da tua sina sofrida
Choras tua criação

Parte clonada da vida
Que reclamas proteção
Por ti mesma atribuída
Como regurgitação

Por que parte tua sabe
Mesmo que outra parte não
Que o que esperas dessa vida
Não é tua invenção.

(-Ricardo Vieira-)

sábado, 5 de julho de 2008

Face Alheia do Amor


Nada é mais leve do que um peito que ama. Do que um peito que admite que o amor é algo que somente traz, e jamais leva-te nada. Amor soma, e jamais subtrai. Quando divide, é para multiplicar pelos divisores seus benefícios, tal qual certos pães, de um certo homem, que tão dito, é tão pouco compreendido pelos que o pronunciam.

Estranhamente, é na partilha final que o amor dá o recado de sua existência, ou inexistência. Muito há de se confundir com este famoso personagem habitante da alma humana, exceto suas características fundamentais. Ele sempre acrescenta, até na despedida. Quando real e verdadeiro, quando existente, ele quer, ele deseja. Mas ele permite. E não apaga a luz ao sair. Acende luz por onde passa, ascende em desejo de boas graças.

Na partilha, deixa mais do que havia ao chegar, sempre. Não leva nada que não tenha trazido. E se leva, deixa em troca o valor maior. Pobre do que crê que “estar” é “ser”, pois acreditará que amar dá-lhe o direito de “ter”. E amar é um direito hibrido, sem contrapartidas. Amar é um ato unilateral da existência, ainda que as conseqüências não sejam unilaterais.

Nada mais leve do que o peito de quem ama e se vai, pois da partilha, bem entendes, leva o que aprendeu e o que viveu, sem dor. Deixa o que tinha de melhor, de mais limpo e precioso, de mais autêntico e legítimo. Se o peito pesa, certamente não é preciso dizer o que isso significa.

Acreditar que a ausência de quem ama pune a alma, e punir a alma de quem ama com a ausência, é incorrer na verdade inevitável... Não há amor por parte de quem isso pretende. Ainda que unilateralmente, haja de lá, lado que não perde. Ainda que na partilha, se prejudique, ficará a certeza, a clareza. Sem dor, não se perde por amar. Se perde, é apenas por que não se sabe amar sem saber somar. Então, divido-me. Divido-me em lado esquerdo e lado direito. Leva-me um, deixa-me o outro, para que eu me possa conhecer melhor.

Quando saírem, amores meus, lembrem-se de não apagarem a luz de meu olhar. Ao menos não de meus dois lados. Pois meu coração Pagão algo sabe de Cristão. Ofereço-te a outra face: a que ainda pode sorrir.

Pratique a Digitação