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domingo, 25 de outubro de 2009

.:|DE|CO|RA|ÇÃO|:.

.:|DE|CO|RA|ÇÃO|:.

Teu peso é bom
Pousa em meu peito, leve
Como aquele som

Que entoavas
Quando os corpos
Se enlaçavam

Sussurro baixo
Cujo o ritmo ditei
Em plena aurora
E em compasso acelerado

Eu me fiz Rei
Quando teu grito
Contraído e abafado
Verteu-me o gozo
E me fizeste coroado

E ao fim da cena
Feita plena a exaustão
A imensidão da noite
É manhã amena

Acarinhando teus cabelos
Eu descanso
Um sono manso
Bem desperto, a observar
O impossível de negar

É estampado:

De coração te digo
Pouco há tão lindo
Quanto meu chão
Com tuas roupas decorado

(.:|Ricardo Vieira|:.)

sábado, 17 de outubro de 2009

(.:|PEITO CANALHA|:.)

(.:|PEITO CANALHA|:.)

Não que o valha...
O cheiro é forte, e pelo quarto
Se espalha
Bem como o gosto de mamilo
Em minha língua
Creio que o meu, do mesmo modo
Em ti, e à míngua
Mata de sede este teu ventre
Ninho meu

Que hoje me acolhe
Tal qual como prometeste
Eu que te adentre
Embora outro o dono teu

E já que agora é hora minha
Ao desfrutar
Que seja intenso, seja insano
O Gozo meu

E o que te cabe é suspirar
Ir recordando o tudo feito
Então te aninha...

... Mas noutro peito

A hora minha é hora ida
E ido sou
Deixo da hora minha o gosto
Que restou
E outros sabores
Que meu corpo te deixou.


(.:|Ricardo Vieira|:.)

.:|Outro Idioma|:.


Quando a flor te dei


Quis fazer-te entender


Tudo que calei



.:|Ricardo Vieira|:.

.:|HORA PERDIDA|:.

.:|HORA PERDIDA|:.

– E já te vais?
– Não que eu queira, mas preciso..
– Não que eu lamente, ou te precise...
...Um pouco mais...
– É “tanto faz”?
– É “tanto fez”. É meu desejo embebido
Em altivez
– Ah, se não fosse o compromisso, então...
... Talvez...
– “Talvez” não basta, olhas meu corpo e diz...
... Que vês?
– Hum... Eu vejo o nu, arrepiado
E meia dúzia de arranhões
– Não te diz nada este meu corpo
Tão lanhado?
– Diz sim: Que é justo que eu esteja
Pouco mais que atrasado
– Então te abro bem as pernas
E a ficar mais és convidado
– É... neste caso, por não ir
Sinto-me já justificado.


.:|Ricardo Vieira|:.

.:|Condição|:.


E eis o chão


Que te apresento aos joelhos

Que perfeitos nele são
.




.:|Ricardo Vieira|:.

.:Pequenos Golias:.

A borboleta alçou

Vôo sem razão

Ao olho do furacão



(.:|Ricardo Vieira|:.)

.:xXx:.

A vida em gotas caía

Todo a respingar:

Ri/acho/via.


(.:Ricardo Vieira:.)

.:MEU-TEU-BREU:.

Já que nosso amor é cego
Deve ser escrito em Braille
Vem em mim, e me tateia
Vem sentido, toque a toque
Me permeia

Me seguras pelo ombro
Vem no encalço do calor
Pelo cheiro, vem, persegue
Se amor, seja o que for
Deixes que ele me carregue
Vem, me segue: Cegue



........................................................................(.:Ricardo Vieira:.)


...........................................................................................................['Psicografando' Ana Átman]

.:POSOLOGIA IRREAL:.

Ah, a sanidade, esta maldita

Menos mal, que ainda encontro

Esta loucura... que me cura

.:|Ricardo Vieira|:.

.:QUASE HORA/JÁ SEM TEMPO:.


Às quase duas decidi que esqueceria

Que as quase três, por certo
O olho, nem de longe consternado
Qualquer fosse a hora que eu levantaria
Segue alerta, indiferente
Enquanto eu, sigo pregado

Não que importe, sigo em frente
Diferença não faria
Dormem eles, quase todos
Mas eu cá, bem acordado
Quase lembro do bilhete
Bem ali, dependurado
Na tão fria geladeira
No post-it amarelado

“Lembres: tens de esquecer
De nunca ler este recado:
Não esqueças de esquece-la
E retirar-te do passado
De quem rouba, sem sofrer
O teu sono lá deixado”

Quase sol, quase já dia
Quase hora de entornar
Meia xícara vazia
Disto tudo que acabou
Sem ter mesmo começado.

é...

... Bem lembrado.

(.:Ricardo Vieira:.)

DOIS 'U's


Mil perdões, se brutalmente
Chego assim, pra te falar...
... É que amo, e quando amo
Amo sempre urgentemente

(.:|Ricardo Vieira|:.)

.:T U D O P A S S A:.


Certas coisas, tal qual brisa

Certas outras, como arado

E o peito, então? ... lavrado



(.:Ricardo Vieira:.)

VER-TE-VER-TER


Jamais quis eu
Regar teus olhos de menina
De triste idéia
Ou de um sonho que apagou

Pois vi meu rosto
Refletir em tua retina
De um modo tal
Que o espelho sempre me negou

Por isso dói ver-te verter
Lágrima triste
De alegres olhos
Que mi’a vida alumiaram

E antes de tudo isso
Que tu me pedistes
Tragavam flores que te dei
E hoje murcharam
E não de fracas, quero agora
Que me entenda
Pois corajosas elas morrem
Só no fim

Mesmo que a mim
Tua'ida rasgue sem emenda
De tua retina
Não retiro-me assim

Sou dela a parte que te parte
Impiedoso
Dessaboroso do espelho
Meu que vai

Se em parte parto
Parte fico: Paciencioso
Aguardo quieto
A tempestade que se vai

Não que estar quieto
Me faça silencioso
Nem meu silêncio me faça
Ficar parado
Pois meu estado vegetal
É tendencioso
Caos comprimido
Qual bramido entoado
(.:Ricardo Vieira:.)

- DESAMOR REVEL -


E quando vi aquele olhar
Eu já sabia...
Que era só questão de tempo
E então mais nada existiria

Mesmo que digam
Que no amor jamais é tarde
Eu digo: Tarde
É quando amor à revelia


(.:Ricardo Vieira:.)

Permeio o Meio Afim de Um Fim


Quem não combate não bate
Se não barganha, não ganha
Mas se procede e não cede
Fazendo teia, emaranha

Mas não detenha o que tenha
Alma correta na reta
Não seja omisso se isso
Mantém teu olho na seta

Se tens respeito no peito
Enfrente sempre de frente
Se referido o ferido
Fazei perfeito o teu feito

Reage diante o que age
De coração justa ação
Se faz presente ao que sente

Que abarca a honra e arca
Com conseqüência e seqüência
E de virtude se marca.

(.:|Ricardo Vieira|:.)

DEU TUDO ERRADO? CHAME A BRIGADA!

Há tempos a política de varrer a sujeira para baixo do tapete vem se tornando a principal estratégia dos governos para cuidar de assuntos importantes como a matemática social e um de seus principais resultados: A Segurança Pública.

E adianto que é impossível falar de segurança pública sem antes definirmos bem o que é INSEGURANÇA PÚBLICA. Cá entre nós, o que significa “estar seguro”? O que é Segurança Pública? A certeza de não ser assaltado ou morto? A garantia que nosso patrimônio não será furtado ou depredado por algum “desordeiro” ou marginal? É, talvez. Mas o buraco é mais embaixo.

Será que deveríamos pensar que essas coisas acontecem onde não há policiamento, e deixam de acontecer onde há um PM? Talvez devamos lembrar que policiamento ostensivo evita o acontecimento do crime naquele local. Não impede o acontecimento onde ele não está. E é impossível um policiamento ONIPRESENTE, que tudo veja em todos os lugares.

É aí que percebemos que a Brigada Militar acabou sendo a ultima barreira de contenção de um processo social completamente deficiente na área de planejamento Criminológico (estudo que atua na lógica de controle da criminalidade nas suas verdadeiras raízes), onde uma série de outros órgãos deveriam atuar, e deixam de faze-lo por falta de preparo, de postura política séria e comprometida com Segurança Pública e Social. E acham que é ‘balela’ ser mais um a falar sobre isso? Não, definitivamente, não. ‘Balela’ é ser mais um a ficar completamente inerte fingindo não ver onde está o erro.

A Brigada Militar, no cumprimento da missão de lutar pela garantia da segurança pública acaba virando a única instituição a empurrar um enorme e pesado caminhão, resultado do erro de toda a física da sociedade. Por conseqüência, acaba sendo a única a levar a culpa quando a falha acontece. E acaba culpada mesmo que não falhe, pois é difícil identificar corretamente o “alvo” de nosso trabalho policial. Afinal, numa sociedade em crise, onde todos são vítimas de suas situações sociais, quem é o agressor? O Estado? Talvez. Nessa hora, parece que viramos a única instituição a vestir a roupa do Estado. Nossa farda.

E, desconstruindo o que diz velho ditado, já que a Brigada é a última barreira antes do caos, e a primeira depois, como o ultimo a sair, que pague a conta de luz.


Artigo Publicado na Coluna Ricardo Vieira no portal ASSTBM:
http://www.asstbm.com.br/portal/?pg=noticia&id=493


.:Ricardo Vieira:.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

.: UNHA E DENTE :.

Então me diz, menina doce
O que te inflama?

É o compasso acelerado no teu peito?

Ou o acaso do vazio...
... na tua cama?
...

Que importa se de fato há futuro
Se o presente é o que te falta
No passado

Que atrasado...

...Vem clamar-te a solidão inseparável
...
E que amável
Foi colher-te no meu peito
Só e quente

E não há gosto teu que eu não experimente
Tão fluente
Que me escorre pelo lábio
Já dormente

Que não és só, e nunca fostes
Digo eu:
Noto que notas
Bem aos poucos
Finalmente
O que te falta é meu suor
Unha e dente

E um solavanco de quadril a te roubar
Ao menos dois ou três sentidos
E o ar
Pra devolver-te gota a gota
Ao meu pulsar

Nem pensar.

É tão preciso haver razão
Em me amar
Quanto razão existe
Em haver o mar


.:Ricardo Vieira:.

Amores Capitais

Ele a viu, então a quis
Ela sentiu. E por que não?
Ninguém previu
Era só vinho, tinto, e um pouco
De arrepio

E foi desejo
E um despejo
Dose ou duas de amor
Como um arpejo
Forte mistura em partes nuas, desiguais

E assim, sem mais

Ela se vai antes que o dia amanheça
Ou aconteça
O esmorecer do encanto típico da noite
Onde ele brinca
E ela vive o dia-a-dia

Que ele não via

O choro surdo/mudo que ela engolia
Quando sorria
Diante da paga prometida
Ela sabia
Que neste ramo
Todo o amor
É Mais-Valia


(.:Ricardo Vieira:.)

Falando na Cara! (II)

A cara é lugar do dedo
E também do beijo

É lugar do tapa
E do rubro sinal...
... de desejo

É lugar que fecha, cai no chão
Que se enche de vergonha...
... é lugar de sem...

É lugar de pau (Cara-de-pau?)
É lugar de tacho, mas...
Sabe o que eu acho?
É de onde vem.

Tanto o sorriso, iluminada
De lágrima, toda lavada...
De emoção, deste meu ato
Do choro teu que desato.

Eis o fato, e que nunca tarde:
Tua cara é lugar de verdade.

Beijo Colateral


Beijo é grito, é reação
Da calada boca muda
Incapaz outra ação.

MEU DELEITE DERRAMADO

Por acaso não te falta nada não?
Nem meu gosto na tua boca
Nem meu cheiro na tua mão?

Não te falta nos cabelos
Embaraços de noitada
Pele minha nas tuas unhas
... e acabada...

Manchas úmidas na cama
Teu, meu, teu
Nosso, enfim
Tanto faz gozo de quem
Se vem de ti ou vem de mim...
... Então é meu.

Bem como as marcas
De amassado em teu vestido
Então, despido
Mas para sempre meu prazer nele exprimido
Nem choras nele o meu deleite derramado
Teu choro é som do desabafo de um gemido

Mas por acaso...
Não te falta nada não?
Nem a saudade
Do rangido do colchão?

Nem lembrar como foi parar nua no chão...
Agora em vão.
Porque é teu, não meu, o cheiro...
... Na tua mão.

(.:|Ricardo Vieira|:.)

Poesia publicada na Coletânea Poemas de Mil Compassos (2009). Conhêça-nos:
http://poemasdemilcompassos.blogspot.com/2009/09/cd-poemas-de-mil-compassos-vol-01.html

A LIBERDADE IMPOSTA

Eu caminhava pelo centro acadêmico de minha faculdade, dentro de uma enorme e renomada universidade, quando ao olhar para a rapaziada jogando videogame, quando não, jogos relativamente ultrapassados em enormes máquinas de fliperama, peguei-me a perguntar a mim mesmo o porquê de não ver nenhum tabuleiro de xadrez...

A resposta veio de uns breves instantes de reflexão: Tempo. Tempo que as pessoas não tem para um jogo tão demorado. E em mais uns breves instantes, uma nova questão assolou-me: De onde vinha o tempo que as pessoas, em especial, os universitários, tinham antes? Com jornadas de trabalho dobradas, em relação aos dias atuais, com a inexistência do Google, para efetuar pesquisas para seus trabalhos, sem informática ou computadores para digitar trabalhos, sem os adventos que nos obrigavam a passar horas escrevendo á mão em um papel, para perceberem que não era o que queríam dizer, amassar, e começar tudo de novo...

Afinal... De onde vinha o tempo para jogar xadrez nos centros acadêmicos? Ou melhor, de onde vinha o tempo para planejar os protestos pela justiça social, pela liberdade de idéias, pela liberdade de expressão intelectual e artística? E pela igualdade dos sexos? Onde se arranjava tempo para lavar roupas à mão e cerzir meias!? E ainda assim, jogar xadrez, ler jornais, tomar um bonde, andar quilômetros de bicicleta ou à pé em nome da necessidade de transporte, e não à boa forma física. Afinal, o tempo na parece ter sido encaixotado e compactado conforme as facilidades foram aparecendo? Para onde foi o tempo que a tecnologia conquistou com altíssimos custos de implantação?

Deixando um pouco de lado as perguntas, que sim, tem uma entonação bordada de sofismas, talvez se faça interessante lembrar que vivemos em um tempo sem bandeiras. Ou melhor, de bandeiras fabricadas com propósitos dispersivos, e não bandeiras surgidas da necessidade de unir classes contra “Inimigos Comuns”. Morreu a ditadura política expressa. A liberdade política e artística ganharam um propósito próprio. Hoje, são escravos dominados de um novo e conveniente senhor: Interesse Econômico Privado.

Há poucas décadas havia razões para manter-se classes unidas em uma só direção, com objetivos comuns para a conquista de justiça em determinados campos. Hoje, temos uma infinidade de campos, uma infinidade de inimigos, a maioria enrolados em bandeiras estrategicamente construídas para manter as massas com interesses dispersos, e logicamente sem forças. E o que tem isso a ver com o “Tempo”?

Cada um é dono de si e de suas escolhas hoje. E a liberdade escraviza a capacidade humana de administrar seu tempo, na maioria dos casos. Pois controle sobre o tempo é fruto de disciplina pessoal, que normalmente é exercitada em tempos de adversidades externas, e por que não, sociais. Sem exercício de disciplina íntima, o tempo escorre por entre os dedos sem seu devido aproveitamento, para si, ou para o todo. A liberdade tornou-se o senhor bom e piedoso, que escraviza seus vassalos encaixotando-os na falta de habilidade no manejo de seu livre arbítrio. O binômio Necessidade/Possibilidade desequilibrou-se em proporção, prejudicando a capacidade de uma sociedade inteira de usar bem suas possibilidades em excesso. A necessidade educa a possibilidade. Mas só quando existe.

Não há ativismo. Há apenas a promessa de um lugar aos sol, quem sabe ao lado do próprio inimigo que hoje oprime. Estratégia? Hoje é de mercado. De trabalho, comercial, na formação do time, no futebol. Na compra dos jogadores certos. Bandeiras? Elas têm cores e brasões, e uma torcida. Inimigos? Não deixarão de existir nunca, mas és livre para escolher os teus. A não ser que consigas realmente perceber que eles não são mais declarados. E se ocultam por trás dos espelhos de nossa ignorância, íntima e coletiva.

A ILHA DOS CAVALEIROS NÁUFRAGOS



No início, era apenas um. Vinha ao longe, o reflexo do sol poente no Lago Guaíba era forte, e passava por entre as patas finas do cavalo igualmente fino. Somente quando aproximou-se um pouco mais, podia-se ver o meninote. Era ainda mais fino. Conduzia o pingo por uma corda que ficava invisível, pela distância misturada ao forte reflexo por de trás. A ruazinha era de chão batido, como não poderia deixar de ser em uma pequena favelinha como aquela.

E enquanto ajustava o cinto de minha farda, pois queria estar impecável, notei que novos pontos, semelhantes ao primeiro, surgiam ao fundo. Eram mais cavalos. Primeiro três, depois quatro, e então cinco. Parei de contar, eram muitos. A cena tinha algo de mágico, a luz refletida do sol poente dava um tom inexplicável ao que se via. Porém, um comando me alertava que precisava entrar em formação. A “retreta” começaria.

Nos poucos instantes que me senti um contemplador dos detalhes, quase esqueço-me que estava ali, e como Policial Militar.Mais que isso, como Músico da Banda da Policia Militar. E que tocaríamos para as crianças da Ilha dos Marinheiros, na inauguração de uma pequena biblioteca escolar.
Que evento grandioso! Poderia ser maior? Poderia ser mais importante do que o evento que horas antes colocava-nos imóveis, a tocar a “Marcha dos Cônsules” ao ilustre diplomata de um país do qual já nem mais lembrava...
Era ele um único homem. Certamente já sabia ler e escrever o próprio nome. Diferentemente daquelas crianças todas à nossa volta, que vertiam olhares encantados aos instrumentos grandes e dourados.





Algumas gritavam, corriam em volta da formação da Banda. Outras pareciam tímidas, escondiam seus corpos magros e amorenados de sol, algumas encardidas, atrás de suas mães, irmãos mais velhos, mas com aquele olhar curioso que somente habita a face de crianças que não tem um computador em casa. E que não tem nada além da certeza de um destino previsível e estatisticamente triste. Por instantes, percebi o quão importante era estar ali. E ser policial. Quisera ser visto como um, dentre os colegas, pois torcia para que sempre que aquelas crianças vissem a polícia, não a temessem. Que fosse para comemorar vitórias. Que não fosse para celebrar fracassos, que na verdade não seria apenas deles, mas também meu.

Queria empunhar meu Sax, e tocar bem o bastante, para que jamais esquecessem o quanto é belo ouvir música. E o quanto é belo ter uma pequena biblioteca, para se poder ler, e se poder saber que havia um mundo depois daquela ponte. Da ponte que separava o mundo portoalegrense do mundo náufrago da Ilha dos Marinheiros. Era uma comunidade pequena demais para ser importante. Mas grande demais para ter solução.

Toquei. Não me lembro que músicas foram, mas não esqueço dos sorrisos que me alegraram. Nem das indiferenças que me deprimiram. Mas num breve intervalo, elucidei o mistério dos cavalos que brotavam do horizonte.

À beira da estrada, um pequeno lago, mais parecendo uma grande poça de água. Algum pasto ralo, formando-se entorno da água. Um oásis para cavalos magros como aquelas duas ou três dezenas de matungos ossudos, quase todos conduzidos por crianças pequenas. Algumas passaram por nós com o mais absoluto desprezo. Mas eu sabia que não era indiferença. Era apenas defesa. Não pertenciam àquela escolinha, ou então estavam em “horário de trabalho”.

Havia um sistema, era visível. A “Economia” daquele lugar girava em torno destes cavalos, pois eram quase todos veículos, para carregar papelão e o lixo produzido por aquela enorme selva de edifícios altos que se podia ver ao fundo do cenário, agora não tão belo. Estava cheio de cavalos magros, crianças magras, com água pelo meio das canelas finas.
Fazia frio. Questionei-me se eu conseguiria suportar aquilo.

Um ou outro moleque abanou. Correspondi, sorrindo, mas ao olhar para o lado, vi que era encarado como um idiota por colegas cansados, certamente contrariados com o fato de estarem ali. De certo modo, eu também me sentiria, se não tivesse conseguido enxergar a beleza trágica do desenvolvimento humano. Inclusive de nossa presença ali. Era um sistema, e éramos pequena parte da cerimônia de rolamento das engrenagens hipócritas da maquina social. Éramos o afago que precede o tapa. O tapa da realidade do futuro.




Pela manhã, pais maltrapilhos e desdentados sairiam em carroças puxadas por aqueles matungos, em busca de papelão e lixo urbano, para trazer o máximo que pudessem para os pátios dos casebres daquela favela. As crianças ficariam por lá, se não tivessem já o tamanho necessário para conseguirem ajudar na lida. Fazendo o que? Catariam pasto para cavalos, e passariam o resto do tempo sobrevivendo de algum modo pouco pedagógico. Com sorte, jogariam bola na escola. Sem sorte, sabe lá Deus. E sabia.



Nossa missão acabou. Menos de uma hora depois de termos chegado. A deles acabara de começar, alimentando os cavalos. Ouvi de um colega: “Pobre cavalo. Olha que secura! É virado em ossos, o coitado”.
Olhei para o cavalo, e para o menino ao lado dele, desprezando nosso ônibus que passava a metros dele. Mesmo curioso, ele não nos voltou o olhar. “Pobre cavalo”, concordei. “Pobre cavalo”. Olhei mais uma vez para o rio, o famoso “Lago Guaíba”, que anoitecia imitando o céu. Nele, estrelas e luzes urbanas pareciam mergulhar sem se apagarem. Ele às engolia. E agora, lá atrás, no fim da ponte, parecia engolir a Ilha. E seus cavaleiros. Foi então que completei: “Pobres Cavaleiros”. Eram apenas cavaleiros. Cavaleiros de um novo tempo.

Eram náufragos.


(.:Ricardo Vieira:.)

A PÁSCOA FINAL

Lá do alto elas não pareciam as doces criancinhas que sempre vira... Que sempre tratara como a grande motivação de seu doce ofício. E era com os olhos embotados de horror que sentia-se ensurdecido em meio aos gritos: “COELHINHO DA PÁSCOA, O QUE TRAZES PRA MIM?”
A voz já lhe faltava. Aliás, sempre lhe faltara. Coelhos não falam. Apenas saltitam e entregam ovos de chocolate na páscoa. E a multidão de crianças enfurecidas continuava a sacudir-lhe a cruz, o que fazia com que os pregos enterrados em suas patinhas de dígitos rosados rasgassem-no ainda mais a delicada pele... Tingira seu pelo branquinho e macio de encarnado sangue inocente...

- COELINHO DA PÁSCOA, O QUE TRAZES PRA MIM?

“Mas hoje é domingo, não sexta da paixão”, pensava ele. As coisas estão erradas, não era para ser assim. Queria poder dizer a eles, mas uma lança lhe perfurava as costelas neste instante, para conferir sua imobilidade. As crianças eram enfurecidas. Ou então, piedosas e ineficazes, como são quase todos os humanos piedosos quando estão diante dos impiedosos. Fracos e inoperantes.

A confusão não parou por aí. Ele já não podia mais explicar-lhes nada, nem entregar-lhes ovos de páscoa. Nem mais poderia deseja-lo. Apenas sentia o calor de seu sangue esvaindo-se. Veria suas quatro patas penduradas em chaveiros por aí, quem sabe trazendo sorte a alguém.

Indignadas com a falta de movimentos do Coelho, algumas sacudiam a cruz ferozmente, o que lhe aumentava a dor significativamente.
- COELINHO DA PÁSCOA, O QUE TRAZES PRA MIM?
“Um ovo, dois ovos, foi pouco, enfim... É meu fim. Pai, por que me abandonastes?”

Não importa. A dor estava passando, e um profundo e confortável frio invadia suas entranhas. Seus olhos vermelhos agora iam ficando vítreos, já nem refletiam com perfeição o céu que de azul, revestia-se de um violento e revoltoso acinzentado. O pelo branquinho apenas agitava-se pela brisa quente-fria, que aumentava ferozmente, anunciando uma intensa tempestade.

- HEI! ELE ESTÁ MORRENDO! NÃO O DEIXEM MORRER! SERIA O FIM DA PÁSCOA! ACORDA, SEU CRETINO, NÃO MORRE NÃO!
E invadidos de enorme fúria e desespero coletivo, todos balançavam juntos a cruz, já sem causar dor ao corpo inerte. “E AGORA, O QUE VAMOS FAZER? AH, É O FIM DA PASCOA, É O FIM... QUE DEUS NOS AJUDE, QUE DEUS NOS MANDE UM NOVO MESSIAS, JÁ NÃO TEMOS LADRÕES O SUFICIENTE PARA TRUCIDAR!”

Olhavam, agora já apáticos e nulos, para o corpo imóvel e morto, crucificado... O pequeno coelho. Antes macio e fofinho, parecia agora magrela e esticado. Cena estranha. Coelhos são ridículos quando estão mortos. Principalmente se estiverem crucificados.
- Ouvi dizer que ele ressuscita daqui três dias...
- Não, seu burro, isso seria se ele tivesse morrido na sexta.
- Então, o que faremos?
- Sei lá. Acho que matamos o cara errado de novo.
- Pó, agora estamos ferrados, acabou a páscoa.
- É, - disse um terceiro, aproximando-se – Ainda bem que ainda resta o carnaval, né?
- Putz, é verdade! É mesmo! Não tem chocolate, mas tem samba e mulher nua! Eita, temos que comemorar!
- É mesmo, chama o Barrabás aí, ele coordena bem essas festinhas, conhece uma galera do movimento que pode até financiar a paradinha!
- Pois é! Boa idéia. Mas vamos comemorar antes ou depois da chuva? Ta se armando um temporal do caramba aí, heim?
- Ah, sei lá, tanto faz. O Império Romano não vai durar pra sempre mesmo, temos que aproveitar é a vida. Deixa chover! Salve aí, mestre Barrabás, escapou por pouco, heim? – E foi cumprimentando o mal-encarado homem que se aproximava.
- É, como sempre, né? Mas ‘tamos’ aí, ‘que que’ tá pegando?
- Galera bolada, meteram o Coelho da Páscoa na cruz.
- Pó, meu! Maior furada, que vacilo. O ‘Homi’ não gosta dessas parada não, teve uma vez que encheu tudo d’água por causa desse vacilos aí. Cês não aprendem nunca, né? É só ir levando de boa, que nem eu, faz errado mas faz na moral, tendo um trouxa pra crucificar, a galera fica contente, mas não dá pra meter qualquer um no prego, pô! Não é por isso que eu to sempre aqui?
- É, meu. Malzão aí, desculpa mesmo, Barrabás. Mas vamos ao que interessa. Vamos comemorar que ainda sobrou o carnaval!
- É ISSO AÍ! FEITOOOO!

E assim seguiu a multidão de crianças, felizes e contentes, vagando pela eternidade de suas conquistas. Galgando o pão, o circo, o chocolate e o sangue nosso de cada dia!

Pratique a Digitação