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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A ILHA DOS CAVALEIROS NÁUFRAGOS



No início, era apenas um. Vinha ao longe, o reflexo do sol poente no Lago Guaíba era forte, e passava por entre as patas finas do cavalo igualmente fino. Somente quando aproximou-se um pouco mais, podia-se ver o meninote. Era ainda mais fino. Conduzia o pingo por uma corda que ficava invisível, pela distância misturada ao forte reflexo por de trás. A ruazinha era de chão batido, como não poderia deixar de ser em uma pequena favelinha como aquela.

E enquanto ajustava o cinto de minha farda, pois queria estar impecável, notei que novos pontos, semelhantes ao primeiro, surgiam ao fundo. Eram mais cavalos. Primeiro três, depois quatro, e então cinco. Parei de contar, eram muitos. A cena tinha algo de mágico, a luz refletida do sol poente dava um tom inexplicável ao que se via. Porém, um comando me alertava que precisava entrar em formação. A “retreta” começaria.

Nos poucos instantes que me senti um contemplador dos detalhes, quase esqueço-me que estava ali, e como Policial Militar.Mais que isso, como Músico da Banda da Policia Militar. E que tocaríamos para as crianças da Ilha dos Marinheiros, na inauguração de uma pequena biblioteca escolar.
Que evento grandioso! Poderia ser maior? Poderia ser mais importante do que o evento que horas antes colocava-nos imóveis, a tocar a “Marcha dos Cônsules” ao ilustre diplomata de um país do qual já nem mais lembrava...
Era ele um único homem. Certamente já sabia ler e escrever o próprio nome. Diferentemente daquelas crianças todas à nossa volta, que vertiam olhares encantados aos instrumentos grandes e dourados.





Algumas gritavam, corriam em volta da formação da Banda. Outras pareciam tímidas, escondiam seus corpos magros e amorenados de sol, algumas encardidas, atrás de suas mães, irmãos mais velhos, mas com aquele olhar curioso que somente habita a face de crianças que não tem um computador em casa. E que não tem nada além da certeza de um destino previsível e estatisticamente triste. Por instantes, percebi o quão importante era estar ali. E ser policial. Quisera ser visto como um, dentre os colegas, pois torcia para que sempre que aquelas crianças vissem a polícia, não a temessem. Que fosse para comemorar vitórias. Que não fosse para celebrar fracassos, que na verdade não seria apenas deles, mas também meu.

Queria empunhar meu Sax, e tocar bem o bastante, para que jamais esquecessem o quanto é belo ouvir música. E o quanto é belo ter uma pequena biblioteca, para se poder ler, e se poder saber que havia um mundo depois daquela ponte. Da ponte que separava o mundo portoalegrense do mundo náufrago da Ilha dos Marinheiros. Era uma comunidade pequena demais para ser importante. Mas grande demais para ter solução.

Toquei. Não me lembro que músicas foram, mas não esqueço dos sorrisos que me alegraram. Nem das indiferenças que me deprimiram. Mas num breve intervalo, elucidei o mistério dos cavalos que brotavam do horizonte.

À beira da estrada, um pequeno lago, mais parecendo uma grande poça de água. Algum pasto ralo, formando-se entorno da água. Um oásis para cavalos magros como aquelas duas ou três dezenas de matungos ossudos, quase todos conduzidos por crianças pequenas. Algumas passaram por nós com o mais absoluto desprezo. Mas eu sabia que não era indiferença. Era apenas defesa. Não pertenciam àquela escolinha, ou então estavam em “horário de trabalho”.

Havia um sistema, era visível. A “Economia” daquele lugar girava em torno destes cavalos, pois eram quase todos veículos, para carregar papelão e o lixo produzido por aquela enorme selva de edifícios altos que se podia ver ao fundo do cenário, agora não tão belo. Estava cheio de cavalos magros, crianças magras, com água pelo meio das canelas finas.
Fazia frio. Questionei-me se eu conseguiria suportar aquilo.

Um ou outro moleque abanou. Correspondi, sorrindo, mas ao olhar para o lado, vi que era encarado como um idiota por colegas cansados, certamente contrariados com o fato de estarem ali. De certo modo, eu também me sentiria, se não tivesse conseguido enxergar a beleza trágica do desenvolvimento humano. Inclusive de nossa presença ali. Era um sistema, e éramos pequena parte da cerimônia de rolamento das engrenagens hipócritas da maquina social. Éramos o afago que precede o tapa. O tapa da realidade do futuro.




Pela manhã, pais maltrapilhos e desdentados sairiam em carroças puxadas por aqueles matungos, em busca de papelão e lixo urbano, para trazer o máximo que pudessem para os pátios dos casebres daquela favela. As crianças ficariam por lá, se não tivessem já o tamanho necessário para conseguirem ajudar na lida. Fazendo o que? Catariam pasto para cavalos, e passariam o resto do tempo sobrevivendo de algum modo pouco pedagógico. Com sorte, jogariam bola na escola. Sem sorte, sabe lá Deus. E sabia.



Nossa missão acabou. Menos de uma hora depois de termos chegado. A deles acabara de começar, alimentando os cavalos. Ouvi de um colega: “Pobre cavalo. Olha que secura! É virado em ossos, o coitado”.
Olhei para o cavalo, e para o menino ao lado dele, desprezando nosso ônibus que passava a metros dele. Mesmo curioso, ele não nos voltou o olhar. “Pobre cavalo”, concordei. “Pobre cavalo”. Olhei mais uma vez para o rio, o famoso “Lago Guaíba”, que anoitecia imitando o céu. Nele, estrelas e luzes urbanas pareciam mergulhar sem se apagarem. Ele às engolia. E agora, lá atrás, no fim da ponte, parecia engolir a Ilha. E seus cavaleiros. Foi então que completei: “Pobres Cavaleiros”. Eram apenas cavaleiros. Cavaleiros de um novo tempo.

Eram náufragos.


(.:Ricardo Vieira:.)

A PÁSCOA FINAL

Lá do alto elas não pareciam as doces criancinhas que sempre vira... Que sempre tratara como a grande motivação de seu doce ofício. E era com os olhos embotados de horror que sentia-se ensurdecido em meio aos gritos: “COELHINHO DA PÁSCOA, O QUE TRAZES PRA MIM?”
A voz já lhe faltava. Aliás, sempre lhe faltara. Coelhos não falam. Apenas saltitam e entregam ovos de chocolate na páscoa. E a multidão de crianças enfurecidas continuava a sacudir-lhe a cruz, o que fazia com que os pregos enterrados em suas patinhas de dígitos rosados rasgassem-no ainda mais a delicada pele... Tingira seu pelo branquinho e macio de encarnado sangue inocente...

- COELINHO DA PÁSCOA, O QUE TRAZES PRA MIM?

“Mas hoje é domingo, não sexta da paixão”, pensava ele. As coisas estão erradas, não era para ser assim. Queria poder dizer a eles, mas uma lança lhe perfurava as costelas neste instante, para conferir sua imobilidade. As crianças eram enfurecidas. Ou então, piedosas e ineficazes, como são quase todos os humanos piedosos quando estão diante dos impiedosos. Fracos e inoperantes.

A confusão não parou por aí. Ele já não podia mais explicar-lhes nada, nem entregar-lhes ovos de páscoa. Nem mais poderia deseja-lo. Apenas sentia o calor de seu sangue esvaindo-se. Veria suas quatro patas penduradas em chaveiros por aí, quem sabe trazendo sorte a alguém.

Indignadas com a falta de movimentos do Coelho, algumas sacudiam a cruz ferozmente, o que lhe aumentava a dor significativamente.
- COELINHO DA PÁSCOA, O QUE TRAZES PRA MIM?
“Um ovo, dois ovos, foi pouco, enfim... É meu fim. Pai, por que me abandonastes?”

Não importa. A dor estava passando, e um profundo e confortável frio invadia suas entranhas. Seus olhos vermelhos agora iam ficando vítreos, já nem refletiam com perfeição o céu que de azul, revestia-se de um violento e revoltoso acinzentado. O pelo branquinho apenas agitava-se pela brisa quente-fria, que aumentava ferozmente, anunciando uma intensa tempestade.

- HEI! ELE ESTÁ MORRENDO! NÃO O DEIXEM MORRER! SERIA O FIM DA PÁSCOA! ACORDA, SEU CRETINO, NÃO MORRE NÃO!
E invadidos de enorme fúria e desespero coletivo, todos balançavam juntos a cruz, já sem causar dor ao corpo inerte. “E AGORA, O QUE VAMOS FAZER? AH, É O FIM DA PASCOA, É O FIM... QUE DEUS NOS AJUDE, QUE DEUS NOS MANDE UM NOVO MESSIAS, JÁ NÃO TEMOS LADRÕES O SUFICIENTE PARA TRUCIDAR!”

Olhavam, agora já apáticos e nulos, para o corpo imóvel e morto, crucificado... O pequeno coelho. Antes macio e fofinho, parecia agora magrela e esticado. Cena estranha. Coelhos são ridículos quando estão mortos. Principalmente se estiverem crucificados.
- Ouvi dizer que ele ressuscita daqui três dias...
- Não, seu burro, isso seria se ele tivesse morrido na sexta.
- Então, o que faremos?
- Sei lá. Acho que matamos o cara errado de novo.
- Pó, agora estamos ferrados, acabou a páscoa.
- É, - disse um terceiro, aproximando-se – Ainda bem que ainda resta o carnaval, né?
- Putz, é verdade! É mesmo! Não tem chocolate, mas tem samba e mulher nua! Eita, temos que comemorar!
- É mesmo, chama o Barrabás aí, ele coordena bem essas festinhas, conhece uma galera do movimento que pode até financiar a paradinha!
- Pois é! Boa idéia. Mas vamos comemorar antes ou depois da chuva? Ta se armando um temporal do caramba aí, heim?
- Ah, sei lá, tanto faz. O Império Romano não vai durar pra sempre mesmo, temos que aproveitar é a vida. Deixa chover! Salve aí, mestre Barrabás, escapou por pouco, heim? – E foi cumprimentando o mal-encarado homem que se aproximava.
- É, como sempre, né? Mas ‘tamos’ aí, ‘que que’ tá pegando?
- Galera bolada, meteram o Coelho da Páscoa na cruz.
- Pó, meu! Maior furada, que vacilo. O ‘Homi’ não gosta dessas parada não, teve uma vez que encheu tudo d’água por causa desse vacilos aí. Cês não aprendem nunca, né? É só ir levando de boa, que nem eu, faz errado mas faz na moral, tendo um trouxa pra crucificar, a galera fica contente, mas não dá pra meter qualquer um no prego, pô! Não é por isso que eu to sempre aqui?
- É, meu. Malzão aí, desculpa mesmo, Barrabás. Mas vamos ao que interessa. Vamos comemorar que ainda sobrou o carnaval!
- É ISSO AÍ! FEITOOOO!

E assim seguiu a multidão de crianças, felizes e contentes, vagando pela eternidade de suas conquistas. Galgando o pão, o circo, o chocolate e o sangue nosso de cada dia!

sábado, 12 de julho de 2008

Ressurreições de Um Imortal

Ora penso, ora “dispenso”
O que sei é que o bom senso
Sempre agrega no dissenso
Mas não tenso. Só derroto o que repenso
Ora me rendo, ora me venço.
Indiferentemente ao fato
De que “isto” eu não pertenço

Independentemente ao fato
De que isso não dispenso
Seja bom ou mau o senso
Teu consenso no dissenso

Levo a verdade contida
No marco zero do tenso
Que inevitavelmente
Real prova o que penso

Mentira leve do Senso
Comum frio e indiferente
Perde a alma e nem sente
E ainda chama de bom senso

Teu consenso não me vende
Não me compra, não me entende
Mas cabe na embalagem
No dente podre da engrenagem
Que impera o que transcende

Cai por chão teu infortúnio
De inglório flerte Hegemônico
Eu que aqui, prossigo atônito
Dia e noite, ainda me venço

Ainda que sigo tenso
Mais simplista que simplório
Prossigo por que me venço
E ressuscito no meu velório

Meio sopro, torto, impreciso
E a luz branca, hoje amarela
Face morta, mas que apaga
Teu sorriso... e tua vela.

(.:Ricardo Vieira:.)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

HOJE ACORDEI COM UMA VONTADE ENORME...

"...De destruir a vida de alguém..."
(.:Verdades Satíricas:.)

Uma manhã quente como os infernos não poderia ser diferente. Lençóis suados e frios pegando nas minhas costas porque esqueci de colocar uma camiseta antes de dormir. Um pé do chinelo que simplesmente decidiu desaparecer por absoluto naquela dimensão onde um dos pés dos nossos pares de meias favoritos cismam em ir parar, e de lá somente regressarem após a gente colocar fora o pé que havia sobrado.

Era um complô sim. Mas não um complô comum. Era um complô em favor de meu mau humor, e obviamente, por conseqüência, um complô contra o mundo que me cercava, pois ali decidi: Hoje vou destruir a vida de alguém.

Dentre todas as lâminas que o homem fabricou até hoje, com o advento da ciência ultra evoluída, nunca, jamais, em hipótese alguma, gerou-se nada capaz de superar o poder cortante de minha língua associada a um violento mau humor. Afinal, de uma vida que de sucessos conheceu apenas o desejo, que de sonhos conheceu apenas a interrupção justamente nos momentos de gozo, as 5h e 45min da manhã de qualquer dia que fosse onde meu deprimente emprego exigisse que eu estivesse, a produzir matricialmente a riqueza de um homem que nunca sequer vi. É uma boa razão – Hoje eu destruo a vida de alguém.

O café... Esse sim nunca me traiu, ajuda a manter as dores de cabeça em relativo controle, e dizem que mantém o sono longe. E se já sinto sono o dia todo tomando café, imagina se não tomo! Sim ele vai me dar o primeiro prazer do dia... Merda... Um gole sedento e profundo de café “adoçado” com sal. Por que diabos são iguais esses potes?

Chega, vamos lá, tenho uma vida pra destruir, hoje acabo com alguém, e só preciso olhar e dizer a verdade. A verdade é suficiente pra acabar com qualquer alma feliz.

Por falar em felicidade, isso é uma palhaçada. Não existe, nem nunca existiu. É pura ilusão. Sempre tem um cretino pra dizer: “Felicidade não existe, somente momentos felizes!” – Isso quando não aparece um cretino mais cretino ainda pra dizer coisa pior: “A felicidade é a gente que faz!”... Definitivamente cretinos. O que existe é a ausência de cretinisse e infelicidade, e isso posso provar pra qualquer um (que não seja um cretino, óbvio).

Qual não foi minha satisfação ao sair no portão de meu barraco e dar-me de frente adivinha com quem? Ah...! Aquela figura ridícula e presa fácil: O Carteiro. Quer coisa mais ridícula que um homem de meia idade vestido de amarelo gritante e azul-saco andando por aí distribuindo cartinhas? Ah, ele vai me ouvir, aquele ridículo. Na minha mente começou a formar-se o argumente perfeito, e ele jamais conseguiria entregar uma carta novamente sem lembra-se do quão ridículo ele era. Saberia do quanto sua insignificância e frustração eram evidentes no jeito de andar, de fugir de cachorros, de bater palmas para pegar assinaturas, de caminhar por aí feito um imbecil por um salário indigno e interesse de desinteressados por ele. Ah, que maravilha!

- Bom dia seu Amaro! Olha só, ontem passei aqui para lhe entregar este telegrama registrado, vi que o senhor ainda não havia chegado, mas sei que o senhor sai sempre cedo, junto comigo, resolvi guardar pra lhe entregar aqui, para que não voltasse lá pra central, causando transtornos para retirar.

Por um momento fiquei pensando... Quem é esse homem que nunca vi na vida? Que sabe onde moro, sabe meu nome, o horário que saio pra trabalhar, e vem cheio de simpatias sem nunca sequer ter recebido um cumprimento meu (eu é que não perco tempo dando “oizinhos” pra cada um que vejo)...

Sem responder peguei o telegrama, com a curiosidade dividida entre a carta e o homem misterioso, e fui desacelerando o passo conforme tentava ler as letras trepidantes, mas sem conseguir concentrar-me nem numa coisa, nem noutra. O Carteiro acelerou o passo, para não perder o ônibus, faltavam ainda umas duas quadras até o ponto de ônibus. Então consegui ver o que se revelava como: “Querido Amaro! Finalmente encontramos você, depois de tanto anos! Como você está? Teus amigos aqui querem muito saber notícias... blá, blá, blá...”.

Sim, “blá-blá-blá”, pois simplesmente não consegui nem continuar, atônito por ter sido lembrado por... nem lembrava mais por quem. E quando dei por mim, estava estático, parado com a carta na mão. E subitamente lembrando que ia perder meu ônibus, e na seqüência, o emprego, onde atraso não era admitido!

Mas era tarde, faltava quase uma quadra inteira, e vi o ônibus passar pela esquina... Me lasquei... Apenas mantive o passo numa esperança inútil de que não fosse e o meu, e sim o que passava antes deles, atrasado, que tudo ficaria bem. Tem idéia da sensação do pânico que me percorreu? Não tem não. Era pé na bunda, na certa.
Mas, quando me aproximei da parada, qual não foi minha surpresa! O coletivo ali, parado, me aguardando, com uma figura amarela gritando na porta da frente, dependurado: “Vamos, vamos, pedi pra pro motorista te esperar, anda!”

Maldito carteiro. Como eu ia acabar com a vida dele agora? Cretino.

Havia ainda um banco logo atrás da roleta (catraca, para alguns), e tratei de adiantar-me e sentei. Ele postou-se em pé, ao meu lado, calado e compenetrado na janela. Fiquei torcendo para que não ficasse puxando papo, odeio conversas de ônibus, não tem coisa mais chata. À minha frente, a figura tétrica do cobrador (trocador, para alguns), morrendo de sono, quase dando cabeçadas na sua gaveta de moedas. Que ridículo. Seria ele. Sim, ele ia ser destruído!
- Hei, cobrador! Tava de festa ontem? Não consegue nem parar sentado...
- Não senhor, era velório. Minha mãe de criação faleceu, foi péssimo... Nem folga consegui hoje, mas vou tentar agüentar o dia de trabalho, apesar da tristeza. Puxa vida, ela era tudo pra mim... A melhor mãe do mundo.

Duvidei... Acho ainda que ele estava de festa, mas na dúvida, melhor não questionar. Vai que é verdade e a falecida vem me puxar os pés de noite... Não que eu acredite, mas melhor não arriscar. Segui em frente, entediado.

De repente, lembrei-me: A carta! Afinal, quem era esse remetente esquecido, que de alguma forma me achara? Desembrulhei o bendito papel, confesso, com alguma ansiedade. Nem me lembro da ultima vez que recebi uma carta antes dessa. Recebi?

Para não continuar do blá blá blá, reiniciei a leitura: “Querido Amaro! Finalmente encontramos você, depois de tanto anos! Como você está? Teus amigos aqui querem...”

- Moço, será que o senhor se importa de segurar isso pra mim? – Mas antes mesmo que eu pudesse responder, ou sequer ver direito a dona da voz feminina e irritante que me perguntara, pousou sobre minha carta uma enorme sacola de pelúcia, cheia de mamadeiras, cobertores (que tipo de criatura anda com cobertores num dia quente que nem hoje?), e um monte de porcarias dessas que bebês gostam que suas patéticas mães carreguem. E não poderia piorar. Ela levava o bendito bebê no colo, fazendo questão de enfiar a fralda polpuda na minha orelha. É. Seria uma viagem ao inferno hoje.

Estava fervendo. E certamente me deixava a face rubra. Era meu sangue, prestes a ebulir. Faltava bem pouco. E de repente... O som denunciava eventos bem ali, na minha orelha esquerda. O bebê fez a única coisa que sabia produzir na vida. Sim. Olhei para a janela ansioso para que estivesse aberta, antes que o fedor me entranhasse pelos poucos cabelos. Segundos depois já estava calculando o tamanho da abertura da janela em relação ao tamanho do simpático bebê fedorento. É. Eu ia dizer as verdades que merecia ouvir toda a mãe chata que carrega bebês em ônibus lotados de trabalhadores que atravessavam toda a periferia e meia cidade para chegar aos seus malditos empregos.

Cheguei a postar-lhe os olhos, anunciando que diria algo e... Percebi que passou-lhe por sobre o ombro um braço generoso... Talvez do tamanho da minha perna em sua melhor época. É. Preferia destruir a vida de alguém sem destruir minha arcada dentária, já faltosa de alguns entes queridos.

O ar da metrópole nunca foi tão puro! Pernas duras, mas acostumando-se a andar enquanto descia os degraus do coletivo, depois de quase hora e meia esmagadas pela sacola, e, depois de certo trecho, pela criança que fui escalado pelo marido para carregar até que cedesse o lugar. É. Finalmente pude descer e devolver um bebê de fraldas cheias e cheirosas para sua mãe.

Apenas três quadras, e meu posto de trabalho chegaria. Ah, a vida deu-me, depois de tantos anos, a posição de fiscalizador daquilo que antes, até bem poucas semanas atrás, era minha função! E havia bastante gente que poderia ser facilmente e merecidamente destruída! O dia chegou! A porta se abriu. Entrei. E lá estavam eles. Meus fiscalizados e suas caras tortas, sabiam que seriam realmente fiscalizados! Sim, seriam mesmo! Mas somente no momento em que eu conseguisse terminar de ler minha carta.

Fui buscar um canto um pouco mais isolado, logo após bater meu ponto. Um canto qualquer sossegado bastaria, não passavam de duas páginas. Apesar de detestar ler, a caligrafia era até bem boa, leria rapidamente: “Querido Amaro! Finalmente encontramos você, depois de tanto anos! Como você está? Teus amigos aqui querem...” – Seu Amaro, por favor, o pessoal vai reunir ali na recepção, tem colega novo.

Ah, os novatos... Eu ainda não havia tido a chance de colocar as mãos num novato bisonho para arrancar-lhe cada resquício de dignidade! Finalmente, chegara a hora!

E qual não foi minha surpresa! Era um homem de grande porte! E casualmente, o homem que me largara no colo uma criança fedorenta, mesmo sob minha recusa, abusando de minha condição desprivilegiada. Lá estava ele, com uma cara de tacho ridícula, e ainda sem uniforme. Ah, prato cheio. Terei o prazer de não demiti-lo nunca, não sem que antes desejasse muito. As coisas pareciam caminhar para a perfeição!
Seu Amaro, esse é Jorge, como gosta de ser chamado, o novo...

- Jorge? Ah, sim, e ainda gosta de ser chamado? – Vi de cara que ele já estava me reconhecendo, pelo sorriso tímido que esboçou.
- É, eu prefiro ser chamado pelo nome, gosto de manter a informalidade, sabe...
- Claro, claro, Jorge. Mas gosto de ser chamado de Seu Amaro. E, melhor! Prefiro toda a formalidade do mundo! E trata de ir direto pro vestiário tomar um banho, tu estás fedendo a bosta de criança de colo. Pode ser que não gostes de carregar as besteiras que tu fazes nas costas e passar para as costas dos outros, mas aqui, podes ter certeza, vai aprender a colocar os pingos nos “Is”.

- Mas... Seu Amaro, eu...
- Poupe-me, rapaz. Me procures somente quando tiver algo de útil pra dizer. De abobrinhas basta as que tenho que aturar de meus chefes dementes. Mas se tenho que aturar esses imbecis, pode acreditar, tu consegues me aturar. Terás que fazer força, mas acho que consegue. Ou não quer o emprego?

- Puxa... quero sim. Nunca quis tanto. Eu...
- Ta, some da minha frente e vai colocar teu uniforme, pois tenho mais o que fazer, e preciso ler uma maldita carta.
- Tudo bem, Seu Amaro. Obrigado pela orientação. Eu...
- “Eu” o quê, criatura?

- Eu só queria me apresentar... Jorge, sou o novo chefe do RH, fui transferido da matriz pra cá essa semana, pra resolver uns probleminhas que têm acontecido por aqui. Aliás, lhe pediria, quando tiver um tempinho, e terminar de ler sua carta, que dê uma passadinha na minha sala, resolver umas coisinhas, sabe? Ok? – Um sorrisinho charmosíssimo lhe escapou quando se virava. O mesmo de todos os colegas e subordinados que estavam na recepção, a nos escutar...

Tentei: “Querido Amaro! Finalmente encontramos você, depois de tanto anos! Como você está? Teus amigos aqui querem... blá blá blá...”.
Eu não conseguia. Resolvi ir logo pro matadouro. E como era de se esperar, fui abatido.

Fiquei impressionado do quanto a vida pode ser injusta com alguém. Logo eu, que jamais desejei o mal de ninguém que não merecesse! Cretinos e suas cretinisses. Vou é pra casa, esperar o jornal de domingo. Mas não consegui pensar em nada no caminho de casa... Apenas uma sensação de impotência perante a injustiça que sofri...

É... Um café bem que poderia amenizar essa dor de cabeça. E tomei um “golaço” de meia xícara, antes de notar que esqui de adoçar dessa vez. Quando consegui desmanchar a careta, tirei o envelope do bolso, para finalmente descobrir o bendito remetente. Quem teria lembrado de mim no dia mais difícil de minha vida?

Não sei. Só sei que o envelope que achei no bolso era o encaminhamento para o seguro-desemprego... A carta, não achei. Aliás, vale lembrar que nunca a encontrei. Devo ter deixado na recepção, onde os colegas riam de minha desgraça. Me restava esperar o carteiro no dia seguinte, e perguntar se sabia de algo mais... Mas era outro, bem velhote... Contou-me que seu colega foi promovido e deixou de entregar. E que certamente mudara de cidade, não fazia a menor idéia de onde encontrá-lo.
Grande coisa. Tem tanto Amaro por aí. Na certa era um engano mesmo.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Vidas Ilhadas

“Anda guri. Vai brincar na rua”. Era uma sentença, Olavo obedeceu. Jamais, sob circunstância alguma, questionava uma ordem de sua irmã. A mão era pesada, sempre certeira pela incerteza. Sempre surpreendia quando vinha, no contratempo da defesa, ou da esquiva. Poucas vezes foi melhor conseguir escapar, era pior mais tarde.

Puxando os calções para cima, o moleque foi saindo da soleira da porta, sob os cutucões da irmã mais velha, com pouco menos que o dobro de sua idade. E sua idade ele jamais pronunciava, apenas mostrava, quando perguntado, com os dedos espalmados de uma mão, descoordenadamente abrindo os outros dois dedos da segunda mão.

“Ligeiro, moleque, anda...” – aos empurrões apressando Olavo, que de má vontade foi se afastando da porta. Nem mesmo levantou os olhos para ver o homem que entrava pela porta de onde ele se levantava. Nem fazia diferença, nunca mais o veria mesmo, e se visse, não lembraria, eram tantos, às vezes, vários num só dia. E a porta tortuosa e feia do barraco rangeu aos trancos até que se fechasse, ficando apenas as frestas enormes. Parado, Olavo ficou olhando a luz apagar-se. Olhou para os lados, em silêncio, e em pé, como se esperasse alguma novidade que nunca aconteceria. Olhou para os barracos dos dois lados, e o silêncio macabro que ainda se fazia, como um suspense que ele preferia continuar ouvindo. Mas o susto invadiu-lhe subitamente, pela grossa camada de poeira que lhe cobriu a vista, vinda do deslocamento de ar de um apressado caminhão que lhe tirara um fino à beira do acostamento, poucos metros de onde as casas perfilavam-se.

Olavo normalmente era atento, e certamente o moleque de sete anos mais sabido do mundo. Sabia direitinho que caminhões tinham gente estranha dentro. Normalmente eram os que mais se demoravam quando paravam.

Mais uma forte baforada, outro caminhão... E decidiu afastar-se um pouco do acostamento. Não temia a morte. Apenas a dor, que era só o que compreendia. E imaginava que “ser pego” doía muito. Lembrava-se, e afastava-se, mas sempre atento à cena atraente dos caminhões que vinham crescendo no horizonte, até agigantarem-se tanto, e deixarem somente seus rastros de poeira e vento, antes de encolherem novamente no horizonte oposto.

A pele amorenada e manchada de pequenos círculos brancos espalhados pelo rosto e corpo estava ficando fria ao sol de fim de tarde, pois vestia apenas aquele enorme calção vermelho e sujo. Sujo como estava seu rosto, de poeira e lágrima provocada pelo vento. Fitava a casa. Em breve a porta abriria, e o homem que entrou sairia, com um pito nos beiços e expressão de sacies. Era sempre assim, de uns tempos pra cá. E era assim também nas casas aos lados. Mas Leandra ultimamente estava sendo a mais visitada. A natureza seguia seu curso, e era preciso extrair daquele lapso de tempo seu único presente rentável: A beleza.

Mas estava demorando muito... A impaciência de Olavo crescia, e incomodava-o. Sentia-se profundamente sozinho, como normalmente não acontecia. Fitou a porta, e ela não abria, e sua imaginação o fazia quase crer que estava se abrindo. Mas não abria.
Olhava para trás, tentava distrair-se com o caminhão que passava, e fazia onda com folhas sobre o asfalto. Mas era angustiante, pois a porta atrás dele não se abria, e Leandra não o chamava. A angústia lhe fez ter vontade de ir até a porta. Mas sabia que a surra era certa depois. A irmã sempre o chamava de muitos nomes estranhos quando a desobedecia, e sua mão era mais pesada que sua voz. Mas uma sensação de pânico ia crescendo, estranhamente, no peito do menino sujismundo.

Voltou a olhar a porta, fazendo esforço mental para vê-la abrir, o homem sair, e Leandra, depois de uns minutos, o chamar. Sempre levava um tempo, suficiente para o homem entrar de volta no caminhão, ligar, e ir embora. Ela o chamaria. Mas a porta não abria. O pânico e sensação profunda de solidão venceriam em breve o medo de apanhar.
À beira do acostamento, naquela ilha perdida num mundo incompreensível e de pedras cinzas, Olavo estava em pé à beira do acostamento, olhando para seu lar com a porta cerrada, desesperadamente esperando. E desejou profundamente a pesada mão de sua irmã estapeando-lhe o lombo, desde que dando-lhe alguma atenção. E precipitou-se a correr na direção da casa, de olhos entornados d’água. E meio metro antes de chocar-se com a porta, assustou-se com o rangido de sua abertura. Ela escancarava-se.
Parado, atônito, assustado e ao mesmo tempo aliviado, olhou para cima, e para o rosto do homem que saia. Ele sempre odiava os homens que entravam e saiam da casa onde vivia com sua irmã, e sua mãe quase nunca presente. O homem olhou para Olavo, bem nos olhos, e o medo o fez ficar imóvel. Imaginou que o bofete de um homem daquele tamanho doeria como se o caminhão o tivesse acertado, e quando ele ergueu a mão em direção ao meninote, este espremeu os olhos, tenso. Um breve afago no cocuruto, e algo que lhe foi enfiado na palma da mão, agarrado instintivamente, sem ao menos olhar. E o homem se foi, assoviando.

Parado. Olavo ficou ali, olhando o homem ir em direção à estrada, para seu caminhão fazedor de ventos. Então olhou para a própria mão, e viu algumas cédulas de uns poucos reais. E uma bala de mel. O sorriso estampou-lhe a face, e desembrulhou rapidamente a bala metendo na boca, correndo rápido para dentro do casebre torto, com o braço estendido com as notas na mão, a fim de entregá-las à irmã, o que sempre fazia quando lhe davam algum dinheiro. Entrou na cozinha a pique, sem notar que a menina se lavava, nua, numa bacia de alumínio amassada. Uns tortolhos e uns gritos, e ele saiu chorando de dentro de casa. Mas cessou as lágrimas de imediato quando viu o homem e seu caminhão partirem.

O som forte dos freios a ar lhe encantavam. Atento a cada manobra do caminhão para sair na ponte que ligava Porto Alegre às demais cidades satélites, a criança sentia-se diferente. Pela primeira vez achou que veria o homem novamente. E pela primeira vez, abanou para um caminhão que partia. Ansioso por vê-lo encolhendo no horizonte, e aproveitar-lhe o máximo a presença. E olhando, distraído, nem sentiu cair-lhe a bala da boca. E quando notou, já tinha havia caído na areia suja, chegou a abaixar-se para juntá-la, mas teve nojo. Voltou rápido os olhos para a estrada, porém, não havia mais nada. Foi a primeira vez que Olavo entendeu que havia algo nas outras pontas daquela estrada. E foi então que decidiu que viveria o bastante para descobrir o que era.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Palavras Curtas

(.:Verdades Satíricas:.)

Fui dar uma espiada na minha caixa de E-Mails, que normalmente fica lotada daquelas mensagens em massa, que algumas pessoas insistem em te enviar caprichosamente todos os dias, sem jamais esquecer de solicitar ao final que você espalhe para todos os seus amigos e contatos. Foi quando estranhamente constatei a presença de um estranho e-mail que não tinha um título nada comum: “Saudações, querido amigo!”

Detalhe: não havia qualquer anexo, nem HTML, nem slides ou fotos... Nada. Tive um crise de pânico! O que seria aquilo? Um E-Mail bomba? Um supervírus novo, desses que saltam do computador e corroem até o mouse? Fiquei apavorado. Mas “cliquei”.

Era um E-Mail! De verdade, cheio de letras, aproximadamente duas páginas A4, se fosse medir em centímetros. Não tinhas “Smile”, as palavras estavam escritas de forma completa, e, acreditem, bem escritas. Mais uma vez entrei em pânico! Só podia ser coisa de um psicopata, avisando o dia de minha morte...!

Porém, era uma amigável “carta”. Começava de forma simples, e terminava de forma simples. Alguém que dizia me conhecer havia muitos anos, e que as curvas da vida haviam separado, e que reconhecera meu nome no Orkut.

Fiquei pasmo. Lembrei-me daquela época em que se trocava cartas, de duas, três, quatro páginas, que contavam como as coisas estavam, as novidades, os dramas da vida. Eu, particularmente, chegava a dedicar umas duas horas às vezes, para escrever aquela carta, que levaria ainda uns três dias depois de colocada naquelas caixas amarelas do correio, que hoje padecem de solidão, as poucas que ainda existem. A ansiedade por uma resposta começava ali. Era caro, trabalhoso, primitivo, mas... Tão pessoal e prazeroso...

O aluguel de uma caixa postal nos correios custava caro, mas ainda assim, se encontrava fila de espera para conseguir uma, e selos se compravam em enormes cartelas quando se tinha um parente distante, ou mesmo um amigo ou namorada por correspondência. Pois é, acho que essas coisas faleceram. E não é pra menos, MSN, E-Mail grátis de todo o tipo, promoções telefônicas, torpedo, celular ao preço de cafezinho, Lan-House por todos os lados, computador ao preço de televisão... Espaço ilimitado para letras. Idéias ilimitadas para escrever. Mas ainda assim, eu raras vezes recebi um E-Mail à altura de uma carta. “E aê, cm vc ta? Fz tmpo q ñ tc com vc! J”... E assim tem sido. Meio parágrafo, pois ninguém mais tem tempo. Quanto mais a tecnologia avança para te dar facilidades, mais dificuldades você encontra. Menos tempo você tem.

Mas continuei minha jornada, lendo o meu raro E-Mail. “Fiquei muito contente de encotrar você depois de tantos anos. Mas não sabia que tinha se mudado para o Rio Grande do Sul, dizem que aí faz muito frio, não é verdade? Pois é, o pessoal da nossa velha escola, aqui em Minas...”

Não consegui acabar o último parágrafo. Jamais morei em Minas. Sempre vivi no RS. Mas me senti contente, ao menos, por não precisar levar até o correio, colar um selo, e mandar de volta ao remetente. :(

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